Divulgações do INCT-ECCE

  

Pesquisadores comprovam eficiência de equipamento auditivo
Após relatório de pesquisa realizada pela UFSCar, USP, MEC e ABA, o Ministério da Saúde decidiu, em maio, oferecer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) equipamento que filtra ruídos de aparelhos utilizados por crianças com deficiência auditiva.

SUS oferta equipamento para crianças com deficiência auditiva após relatório de pesquisadores da UFSCar e de outras entidades

Após relatório de pesquisa realizada pela UFSCar, Universidade de São Paulo (USP), Ministério da Educação (MEC) e Academia Brasileira de Audiologia (ABA), o Ministério da Saúde decidiu, em maio, oferecer pelo Sistema Único de Saúde (SUS) equipamento que filtra ruídos de aparelhos utilizados por crianças com deficiência auditiva. 

Este equipamento, chamado de kit de Sistema de Frequência Modulada (Sistema de FM), existe desde 1965 e já vem sendo utilizado em diversos países do mundo e, desde sua criação, já ganhou formatos menores e tecnologias mais avançadas, mas basicamente tem a função de diminuir a distância entre aluno e professor, eliminando os ruídos que possam atrapalhar o ensino em sala de aula. O sistema é composto por duas partes: um microfone transmissor que capta o som próximo à boca do interlocutor e o envia, sem fio, ao receptor acoplado ao aparelho auditivo da criança que pode ser o Implante Coclear (IC) ou o Aparelho de Ampliação Sonora Individual (AASI). "O benefício do uso de um sistema de comunicação sem fio, como o Sistema de FM, é a melhora na compreensão da fala do professor. Outra característica do Sistema de FM é a frequência de comunicação com o receptor, que funciona via frequência modulada, exatamente como um rádio", explica Regina Tangerino de Souza Jacob, docente da Faculdade de Odontologia da USP campus Bauru e colaboradora da pesquisa que culminou no relatório enviado ao MEC.

A pesquisa intitulada "Projeto de capacitação em deficiência auditiva e o uso do sistema de FM para profissionais da área da Educação em âmbito nacional" foi idealizada pela ABA e apresentada ao MEC pela coordenação de pesquisadores da UFSCar e da USP, alertando sobre a importância do Sistema para a alfabetização e o ensino de crianças com deficiência auditiva. A partir daí, o MEC, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), encomendou a pesquisa ao grupo formado pelo Departamento de Psicologia e Laboratório de Estudos do Comportamento Humano (LECH) da UFSCar, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE), sediado na UFSCar, Hospital de Reabilitação de Anomalias Crâniofaciais do Centro de Pesquisas Audiológicas da USP campus Bauru e a ABA. O objetivo do estudo foi desenvolver metodologias e diretrizes para a implantação do Sistema de Frequência Modulada (FM) no contexto nacional.

O estudo levou dois anos para ser realizado, desde a concepção até o relatório final entregue em fevereiro de 2013, sendo que nos últimos seis meses foram feitos os trabalhos de campo envolvendo pouco mais de 20 pesquisadores. Aos 99 professores de todas as regiões do Brasil atuantes no Atendimento Educacional Especializado (AEE), onde a criança com deficiência auditiva participa de atividades educacionais em período inverso ao da escola regular, foi ofertado, em setembro de 2012, um curso de formação sobre deficiência auditiva e sobre o sistema de FM estruturado em dois módulos, presencial e a distância. Em outubro de 2012, os 202 aparelhos foram cedidos a 106 escolas do Brasil por dois anos, com a possibilidade de renovação de contrato, e a adaptação foi feita por fonoaudiólogos do grupo de pesquisadores e pela empresa suíça produtora do aparelho, a Phonak

Ao final da pesquisa foi comprovada a eficácia do sistema de FM como ferramenta de acessibilidade aos estudantes com deficiência auditiva no processo de ensino e aprendizagem. Além disso, a pesquisa elaborou e validou proposta de formação continuada aos professores do atendimento educacional especializado, objetivando um acompanhamento eficaz dos estudantes usuários do sistema de frequência modulada no contexto educacional, contribuindo para a ampliação e fortalecimento de política de inclusão escolar das pessoas com deficiência. "A resposta foi que os professores aprenderam e a supervisão funcionou e as 202 crianças estão podendo ouvir e interagir melhor. As crianças que estão utilizando o equipamento de FM ficaram mais focadas na voz do professor e mais alertas, obtendo melhores níveis de compreensão", comenta Deisy das Graças de Souza, docente do Departamento de Psicologia da UFSCar e uma das coordenadoras da pesquisa ao lado de Maria Cecília Bevilacqua, docente do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, do Centro de Pesquisas Audiológicas da USP. Deisy frisa que "a pesquisa realizada pelo grupo foi a primeira no mundo com esta dimensão, sendo que, de 10 mil crianças com deficiência auditiva cadastradas no SUS, 2% delas participaram do projeto".

As crianças e os professores tiveram 30 dias para testar o sistema e o grupo de pesquisadores teve mais três meses para produzir o relatório que foi entregue em fevereiro e aprovado no dia 7 de maio de 2013 pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia do Governo Federal. Com a aprovação, o equipamento, que custa em torno de R$ 8 mil, será oferecido gratuitamente pelo SUS, de acordo com a Portaria 21 publicada no Diário Oficial. "Agora temos de aguardar as diretrizes do Ministério da Saúde para saber como o Sistema de FM será disponibilizado. Estamos muito felizes porque agora todas as crianças brasileiras podem ter acesso a este equipamento que será utilizado na escola ou em outros ambientes que elas quiserem. E o mais importante é que todos os 99 professores das AEE capacitados na pesquisa se tornaram multiplicadores nas escolas e também poderão auxiliar os usuários que receberão o Sistema de FM", diz Regina.

Eliana Inojossa, professora de Língua Portuguesa da AEE da Escola Municipal de Ensino Fundamental e Médio Dom Luiz do Amaral Mousinho, em Ribeirão Preto, participou do projeto de pesquisa e atende um aluno que está usando o equipamento. "A escrita é a passagem do som para a letra, então um aluno com deficiência auditiva aprende somente pelo canal visual, o que torna o aprendizado mais longo e, talvez, o aluno nunca possa dominar a Língua Portuguesa como um ouvinte. O Sistema FM pode mudar isso. O aluno que está usando o equipamento ficou muito animado. Na primeira vez em que experimentou o sistema ele ria sozinho e pulava de emoção, pois ouvia com clareza as palavras que chegavam nitidamente aos seus ouvidos. Ele já entende melhor e a gente percebe que o processo de ensino tem sido mais rápido. A atenção melhorou drasticamente", relata Inojossa.

Embora o projeto de pesquisa "Projeto de capacitação em deficiência auditiva e o uso do sistema de FM para profissionais da área da Educação em âmbito nacional" tenha terminado, a equipe de pesquisadores decidiu continuar a fazer estudos com o grupo de alunos que está usando o Sistema de FM. O objetivo é aplicar, por meio dos professores das AEEs, o programa de ensino de leitura chamado Gerenciador de Ensino Individualizado por Computador (GEIC), desenvolvido por um grupo de pesquisadores do LECH da UFSCar. O Gerenciador é um sistema web que viabiliza a autoria e a aplicação remota (a distância) de programas de ensino e pode ser acessado a partir de computadores com os mais variados sistemas operacionais (Microsoft Windows, Linux, MacOS etc.) e navegadores Web (Internet Explorer, Mozilla Firefox, Opera, Google Chrome etc.), bastando ter o plugin do Java instalado. Após avaliação inicial dos alunos, constatou-se que o repertório de leituras deles era baixo. "Para os professores que quiseram, o programa de ensino está sendo aplicado. Este processo pode levar três meses ou mais, dependendo da criança", finaliza Deisy.

E para coroar os resultados positivos conquistados, a pesquisa sobre a eficiência e capacitação do Sistema de FM recebeu prêmio de excelência em Audiologia no Encontro Internacional de Audiolgia realizado em Salvador, de 24 a 26 de abril deste ano.

COLABORADORES

Adriane Lima Mortare Moret (USP/BAURU), Aline Duarte da Cruz (USP/BAURU), Altair Cadrobbi Pupo (PUC/SP), Amelia Cristina Portugal (PUC/GO), Ana Lívia Libardi (USP/BAURU), Ana Suely de Azevedo Chaves Martins (FUNCRAF), Carmen Silvia Carvalho Barreira Nielsen (UFES), Cristiana Magni (UNICENTRO), Eliane Maria Carrit Delgado-Pinheiro (UNESP/MARÍLIA), Fernanda Marcon do Amaral Campos (APADAS), Francisca Canindé Rosário da Silva Araújo (UNAMA), Heloisa Helena Motta Bandini (UNCISAL), Isabel Cristiane Kuniyoshi (Faculdade São Lucas), Joseli Soares Brazorotto (UFRN), Julia Speranza Zabeu (USP/BAURU), Karla Jean Zimmermann de Almeida (UNIVALI), Maria Angelina Nardi Martinez (PUC/SP), Maria Isabel Kós Pinheiro de Andrade (UFRJ), Maria Madalena Canina Pinheiro (UFSC), Mariana da Costa Paes Dayrell (SES/AM), Mariane Perin da Silva (USP/BAURU), Marina Morettin (USP/BAURU), Regina Tangerino de Souza Jacob (USP/BAURU), Sheila Andreoli Balen (UFRN), Vanessa Luisa Destro Fidêncio (USP/BAURU)