Divulgações do INCT-ECCE

outubro de 2007
 
André Ribeiro/UnB Agência
 
(Agência UnB) − O cérebro das abelhas tem o tamanho de uma cabeça de alfinete, mas trabalha de forma semelhante ao dos humanos em termos de moléculas. Elas têm a capacidade de aprender com as conseqüências de suas ações e de orientar seu comportamento para atingir um resultado. Descobrir como as proteínas presentes nos neurônios desses insetos interferem na aprendizagem deles pode ser um caminho para entender o funcionamento do cérebro humano. 

É nisso que aposta o bioquímico Marcelo Valle de Sousa, professor do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília (UnB). Ele coordena uma nova linha de pesquisa que tem como intuito estudar o proteoma (conjunto de proteínas) de cérebros de abelhas. A intenção é ajudar a compreender como o ser humano aprende, memoriza e se comporta. Também será possível identificar futuramente quais mudanças bioquímicas do cérebro estão ligadas ao aparecimento de doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer, assim como em disfunções de aprendizagem.

“Compreender o funcionamento do nosso cérebro é tão ou mais complexo que desvendar a origem do universo. Não é possível analisar seu funcionamento molecular como um todo. Por isso, é importante estudar as estruturas cerebrais de modelos biológicos mais simples”, diz Valle de Sousa. 

A equipe está analisando cérebros de 20 abelhas mandaçaia (Melipona quadrifasciata) operárias fornecidas pela professora Deisy das Graças de Souza, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Metade delas havia passado por um treinamento que incentiva a aprendizagem por meio de estímulos sensoriais (cor e aroma, por exemplo) e a outra metade não.
Além disso, o grupo comparou proteomas cerebrais de subcastas de operárias da abelha Apis mellifera, em colaboração com o professor Foued Espindola, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Ao todo, foram detectadas cerca de 900 proteínas. A idéia foi descobrir aquelas proteínas ligadas à função social que esses insetos ocupam ao longo da vida. Por isso, os cientistas compararam o cérebro de nutridoras (operárias responsáveis por alimentar a rainha) e de campeiras (aquelas saem em busca do néctar). “Encontramos cerca de 50 proteínas presentes no cérebro de umas e não de doutras. Falta identificar a função de cada uma”, comenta o pesquisador. 

O especialista pretende descobrir, por exemplo, a função da principal proteína da geléia real (que alimenta a abelha rainha), a MRJP1, mais presente no cérebro das nutridoras em um estudo que identificará grupos de proteínas que interagem com a MRJP1. 

ABELHAS ACIONAM DISPOSITIVO – O treinamento das abelhas foi feito na UFSCar, em um estudo que conta com a colaboração de pesquisadores da UnB. Um equipamento semelhante a uma caixa é colocado a 1,5 m da colméia. Dentro dele, uma solução açucarada. A abelha é estimulada pelo aroma a voar até seu alimento, mas não consegue alcançá-lo porque ele fica no interior da caixa fechada. Com o tempo, ela descobre que quando pousa em uma barra de metal, a pressão aciona um circuito e o xarope é oferecido em uma concha que se eleva por dentro do equipamento. 

Quando essa resposta já está instalada, tem início o estímulo à discriminação entre cores. Nessa fase, são usados dois aparelhos iguais. Em cada um é colocado um circulo luminoso de 12 cm de diâmetro, um azul e outro amarelo. O xarope passa a ser apresentado apenas quando a abelha pousa na barra de metal de uma das cores (por exemplo, sempre no azul, nunca no amarelo). A posição das cores se alterna ao longo das tentativas para evitar controle por posição e a abelha aprende a diferenciar em qual cor ela deve pousar para obter seu alimento.