Pesquisadora da Universidade de Oxford fala de ferramentas digitais em saúde mental em conferência no Brasil

Evento aconteceu no escopo do segundo ciclo da Escola de Altos Estudos (EAE) sobre crianças e adolescentes em situação de risco

No dia 2 de dezembro, foi apresentada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) a conferência “Digital tools in mental health: social and ethical considerations” (Ferramentas digitais em saúde mental: considerações sociais e éticas), proferida por Ilina Singh, professora de Neurociência e Sociedade na Universidade de Oxford, Inglaterra, onde realiza pesquisa conjunta entre o Departamento de Psiquiatria e a Faculdade de Filosofia (Centro de Oxford para Neuroética e Centro Uehiro). Seu trabalho examina as implicações psicossociais e éticas dos avanços da Biomedicina e da Neurociência para jovens e famílias e reflete um compromisso de longa data de levar as experiências de crianças e jovens à avaliação ética, à tomada de decisão clínica e à formulação de políticas.

Na ocasião, Singh abordou perspectivas sobre as plataformas digitais no apoio à saúde mental, especialmente para jovens com distúrbios, como transtorno bipolar e psicose, além de refletir sobre os desafios éticos relacionados a essas tecnologias. Essas ferramentas podem, de fato, auxiliar no monitoramento constante de determinadas características do usuário, conforme ocorre a inserção de dados. No entanto, a pesquisadora propôs perguntas abertas e reflexivas sobre a temática: “Será que, em casos de saúde mental, a inteligência artificial poderia substituir completamente o ser humano? E o ‘quanto’ ela precisaria ser humana, como medir este algoritmo?”, refletiu.

Para ela, é provável que as plataformas digitais não substituam totalmente o papel terapêutico da figura humana, principalmente em casos mais graves, em distúrbios nos quais as pessoas se sentem moralmente vulneráveis, como costuma ser o caso de jovens com psicose. “Os humanos são muito importantes no contexto de saúde mental digital. Nesse sentido, podemos pensar que essas plataformas podem ser úteis, por exemplo, se focadas em diagnóstico de sintomas, sem necessariamente substituir a intervenção humana terapêutica”, sugere Singh.

A pesquisadora elencou diversos desafios associados ao tema. Um deles envolve a ética na criação de aplicativos envolvendo saúde mental, atualmente focada em questões de segurança, proteção de dados e usabilidade, o que pode deixar de lado a importância de contar com um terapeuta humano acompanhando o processo. “Ao substituir o terapeuta por um algoritmo, temos diversos desafios éticos, como a própria aliança terapêutica, que diz respeito à relação clínico-paciente e que tem se mostrado importante, especialmente no que se refere à prática do ouvir e do testemunhar histórias”, ressaltou Singh.

Outro ponto relevante relacionado às plataformas digitais em saúde mental consiste em levar em conta os diferentes contextos de cada país ou local. “Nós precisamos pensar além de um contexto nacional, entendendo a ética e a sensibilidade culturais de cada país. Por isso é tão importante dialogarmos e refletirmos sobre outras realidades”, pondera a pesquisadora.

O evento aconteceu no escopo do segundo ciclo da Escola de Altos Estudos (EAE) - Crianças e Adolescentes em Situação de Risco: Dimensões Éticas, Intervenção e Inovação Científica, proposta contemplada no Edital EAE nº 14/2018, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e realizada pelos programas de pós-graduação em Psicologia (PPGPsi) e em Educação Especial (PPGEEs) da UFSCar; pelos programas de pós-graduação em Psiquiatria e em Saúde Mental da Universidade de São Paulo (USP); e pelos programas de pós-graduação em áreas correlacionadas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Salgado de Oliveira (Universo).

A iniciativa conta, também, com o apoio dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) sobre Comportamento, Cognição e Ensino (ECCE), coordenado por Deisy das Graças de Souza, docente do Departamento de Psicologia (DPsi)da UFSCar, e sobre Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD), coordenado por Eurípedes Constantino Miguel, docente do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

 

Sobre a EAE - Crianças e Adolescentes em Situação de Risco

A Escola de Altos Estudos (EAE) - Crianças e Adolescentes em Situação de Risco: Dimensões Éticas, Intervenção e Inovação Científica tem como objetivo principal disseminar conhecimento científico de ponta sobre o impacto de experiências de adversidade e negligência no desenvolvimento humano, bem como discutir possibilidades de intervenção, mantendo um olhar atento para as questões éticas envolvidas. A proposta é a de investir neste campo investigativo em três dimensões indissociáveis: a elucidação de abordagens preventivas; a divulgação de modelos clínicos e institucionais bem sucedidos no atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco; e a análise aprofundada dos aspectos éticos que norteiam a pesquisa e a intervenção com estes grupos. Mais informações sobre a EAE podem ser obtidas no site e em página no Facebook.

 

Sobre a pesquisadora

Ilina Singh é pesquisadora integrante dos projetos ADHD Voices, Neuroenhancement Responsible Research and Innovation e Urban Brain Project. Em 2014, recebeu o prêmio Wellcome Trust Senior Investigator Award pelo estudo intitulado “Tornar-se bom: intervenção precoce e desenvolvimento moral na psiquiatria infantil”. Além disso, contribuiu com vários grupos científicos e políticos, incluindo os Institutos Nacionais de Excelência Clínica do Reino Unido (Nice), os Institutos Nacionais de Saúde Mental dos EUA (NIMH) e o Nuffield Council on Bioethics. É copresidente do Conselho Consultivo de Ética do projeto EU-AIMS sobre tratamentos para o autismo e consultora especialista do National Autism Project.

 

Foto: Ilina Singh no Teatro Universitário Florestan Fernandes da UFSCar (Crédito: Adriana Arruda)