Trabalho conquistou 2º lugar no Prêmio Juarez Aranha Ricardo, no âmbito da XLII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento (SBNeC)

A memória de trabalho é um componente cognitivo relacionado à memória de curto prazo, que permite armazenamento e processamento temporários de informações. Estudos mostram que ela está diretamente relacionada com habilidades de leitura, e é possível afirmar que pessoas com dificuldade de aprendizagem de leitura e escrita têm sua capacidade de memória de trabalho mais baixa, em comparação àquelas pessoas que aprendem a ler com facilidade.

Para ampliar o conhecimento na área, Brenda Miura Lunardi, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC (UFABC), desenvolveu a pesquisa intitulada “Habilidades de memória de curto prazo e de trabalho em crianças de 6-12 anos com aquisição de leitura típica e com atraso: um estudo com fNIRs”, sob orientação de Maria Teresa Carthery-Goulart, Katerina Lukasova e Marcelo Salvador Caetano, docentes no Centro de Matemática, Computação e Cognição (CMCC) da UFABC. A pesquisa também está vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE), no qual Caetano é Diretor de Transferência de Conhecimento.

A pesquisa de Lunardi objetiva caracterizar o funcionamento da memória de trabalho verbal em crianças com aquisição de leitura típica e com atraso (atípica). Para tanto, é criada uma situação em que as crianças realizam uma tarefa, que envolve a memorização e repetição de sequências numéricas (denominada tarefa de extensão de dígitos, ou digit span, no Inglês). Concomitantemente, é feita a investigação indireta da atividade neural por meio da técnica de espectroscopia de infravermelho próximo (fNIRS). A técnica – não invasiva e indolor – permite observar a resposta hemodinâmica em uma determinada região encefálica, relacionada à demanda cognitiva da tarefa. Com ela, é possível analisar sinais de oxigenação em regiões cerebrais, fator importante para quantificar a atividade neural local.

O trabalho integra um estudo transversal com participação de outros estudantes de mestrado e iniciação científica da UFABC, que tem como objetivo avaliar o desenvolvimento cognitivo e os correlatos neurais nos primeiros anos do Ensino Fundamental, bem como o efeito da intervenção na leitura e escrita. Participam do projeto 127 crianças, sendo 81 com aquisição de leitura e escrita típica e 46 atípica, estudantes do 2º ao 5º anos em uma escola pública de Santo André, com aprovação da Secretaria Municipal de Educação. Integram o projeto também João Ricardo Sato, docente do CMCC da UFABC, e Joana Balardin, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein.

Metodologia

A tarefa de extensão de dígitos, bastante aplicada em estudos da memória, consiste em solicitar ao participante que repita uma sequência de números falados. Na ordem direta, uma sequência é apresentada (por exemplo, 1-5-7) e o participante deve repeti-la oralmente, logo em seguida. Na ordem inversa, a repetição deve ser de trás para frente (7-5-1), o que torna a tarefa mais difícil, exigindo, além do armazenamento de informação, algum trabalho de processamento. Esta segunda tarefa, então, avalia a capacidade de memória de trabalho do participante. “A tarefa aborda bem a função cognitiva que estamos avaliando, ou seja, a capacidade de memória de trabalho, e por isso foi a nossa opção”, explica Lunardi.

Ao aplicar a tarefa, além de incentivar o aprimoramento da memória de trabalho dos participantes, o procedimento visa investigar, por meio da fNIRS, se há – e como são – diferenças de ativação da região pré-frontal do cérebro das crianças. Isto porque estudos prévios apontam que uma das regiões cerebrais associadas à memória de trabalho é justamente o córtex pré-frontal.

Resultados

A pesquisadora explica que os dois grupos de crianças – com leitura típica e com atraso na aprendizagem de leitura (atípica) – foram comparados na situação de repetição de dígitos na ordem inversa. Primeiramente, os pesquisadores determinaram a maior sequência que cada criança conseguia repetir corretamente na ordem direta. Em seguida, a criança realizava a repetição nas ordens direta e inversa concomitantemente à avaliação com fNIRS. Até o momento, todas obtiveram desempenho próximo ao máximo na tarefa de ordem direta e menor acerto na ordem inversa, como esperado.

“Isto mostra que a primeira tarefa estava realmente mais fácil, pois foi ajustada ao nível que cada criança conseguia responder, e a segunda foi mais difícil para todas as crianças, independentemente de terem dificuldade ou não na leitura, pois tinham de armazenar e manipular informações simultaneamente. Isto é o que esperávamos, de acordo com os estudos prévios”, relata.

No entanto, na ordem inversa, as crianças do grupo com aquisição de leitura atípica mostraram pontuação significativamente inferior ao grupo de aquisição típica. “Este dado também condiz com os resultados de outros estudos que relacionam capacidade de memória de trabalho e capacidade de leitura, reforçando que as pessoas que menos acertam a ordem inversa são as que possuem menor capacidade da habilidade de memória de trabalho e são, também, as que têm dificuldade na leitura”, explica.

Outro achado importante é que as crianças com dificuldades na aquisição da leitura tinham atividade cerebral compatível com maior demanda cognitiva mesmo na tarefa mais simples (dígitos em ordem direta). Ou seja, seu desempenho era igual ao das crianças em desenvolvimento típico, mas a atividade neural inferida pela técnica de fNIRS diferiu entre os grupos.

O projeto está em andamento e os próximos passos incluem a avaliação de dados de uma extensa bateria neuropsicológica realizada com o mesmo grupo de crianças, com avaliações de funções como memória, atenção, noções visuais e espaciais, linguagem e outros domínios cognitivos. “Com esta bateria, poderemos obter um perfil mais detalhado de desenvolvimento do cérebro dos participantes. Além disso, com a utilização da técnica fNIRS, também iremos verificar, com mais detalhes, se há mudanças na atividade cerebral da região pré-frontal durante a tarefa aplicada ao longo do tempo e se essas mudanças estão relacionadas com o processo de intervenção”, finaliza.

O trabalho conquistou a segunda colocação no Prêmio Juarez Aranha Ricardo, no âmbito da XLII Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento (SBNeC), realizada de 1 a 4 de outubro de 2019, em Campos do Jordão (SP). Informações sobre o evento estão disponíveis em seu site.

 Sobre o INCT-ECCE

O tema de investigação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE) é a aprendizagem de relações, especialmente de relações simbólicas e conceituais. O ECCE também vem explorando as implicações das descobertas em seu campo de estudos para a formulação, implementação e avaliação de programas de ensino de habilidades e conceitos acadêmicos, voltando-se, particularmente, para populações desafiadoras, com necessidades educativas especiais. O Instituto é financiado por convênio entre a Fapesp e o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, por intermédio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Também recebe recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A sede do INCT-ECCE está na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mais informações em https://inctecce.com.br.

 

Legenda da foto: Experimentos são realizados com a técnica denominada espectroscopia de infravermelho próximo – fNIRS (Foto: Brenda Lunardi)